COP 27 Special Report: Advancing Climate Objectives Amidst Conflict é um excelente e detalhado documento que analisa o que ocorreu de fundamental nos compromissos, negociações e ações de enfrentamento da crise climática global desde a COP 26, em 2021, até a COP 27, em 2022. A S&P lembra inicialmente que a COP26 trouxe alguns avanços, particularmente no que se refere aos compromissos dos países em eliminar 4,8 bilhões de toneladas de emissões de CO2e até 2030, bem como na assinatura de vários acordos sobre carvão, metano e desmatamento. Os autores ressaltam, porém, que tais acordos acabaram desviando a atenção de temas cruciais como as emissões diretas advindas da queima de óleo e gás e do foco no tratamento da intensidade de carbono associada aos combustíveis fósseis e commodities. A respeito dos compromissos quanto às emissões, os autores frisam também que a ONU já advertiu que a redução de 4,8 bilhões de toneladas de emissões de CO2e está longe do necessário, já que, para atingir a meta de aquecimento de 2°C, é preciso um corte de 12,5 bilhões de toneladas até 2030 (ou 27 bilhões de toneladas até 2030 para atingir a meta de 1,5°C).

Ainda no que se refere aos poucos avanços verificados entre a COP 26 e a COP 27, a S&P ressalta que a guerra entre Rússia e Ucrânia levou alguns países importantes (Alemanha, EUA, entre outros) a dar mais ênfase à segurança energética, o que significa no contexto atual reduzir a dependência do petróleo e do gás russos. É fato que o conflito fez alguns países fortalecerem seus planos para energias renováveis. Porém, também é verdade que vários outros países caminharam no sentido de incrementar o uso de carvão e óleo combustível. Com efeito, a S&P recorda que, por conta deste motivo, a geração de energia a carvão aumentou 7,6% em 2021. De fato, apenas alguns meses depois de se comprometerem em reduzir o uso do carvão na COP26, quase metade dos países que fizeram a promessa caminharam no sentido oposto.

Já quanto à COP 27, o relatório ressalta que a reparação aos países em desenvolvimento por perdas e danos ocasionados por mudanças climáticas finalmente se tornou um tema central na agenda de discussão. No entanto, os impasses e indefinições a esse respeito persistem. De fato, na COP 27 os países mais pobres e mais afetados pelas mudanças climáticas exigiram justiça climática dos países desenvolvidos e maiores emissores históricos, mas estes seguem se dispondo a oferecer apenas ajuda humanitária e financiamentos a novos investimentos (o que significa, portanto, novas dívidas), recusando-se a oferecer ajuda voltada à adaptação e mitigação dos impactos climáticos por meio de reparações e doações. Ainda sobre esta difícil negociação, o acordo final estabeleceu um cronograma para os negociadores definirem os detalhes de um fundo para perdas e danos ao longo do próximo ano, mas as posições permanecem conflitantes. Os EUA e a Austrália não estavam dispostos a assinar qualquer acordo que não inclua os atuais emissores (como a China). O governo chinês, por sua vez, ofereceu contribuição voluntária, mas sinalizou que assumir responsabilidades maiores deve ser uma obrigação dos países mais ricos que, historicamente, são os maiores emissores. 

 Os mercados de carbono também fizeram parte das discussões e os EUA e uma coalizão de estados africanos anunciaram suas metas a respeito, embora a perspectiva de efetivação de um mercado global de carbono ainda esbarre em indefinições. Sobre o carvão, França, Alemanha, Reino Unido e EUA endossaram o Plano de Investimento de Transição Energética Justa da África do Sul para eliminar progressivamente as usinas movidas a carvão e acelerar as renováveis. Enquanto isso, a Índia e a China ainda expandem a energia movida a carvão. 

Vale destacar, por fim, a participação do secretário-geral da ONU, António Guterres, que fez um apelo dramático ao dizer que o mundo está em uma “estrada para o inferno”. Ele implorou às nações ricas e pobres que fizessem um pacto histórico para ajudar umas às outras em vez de trabalharem umas contra as outras. “Uma janela de oportunidade segue aberta, mas apenas um estreito feixe de luz permanece. A luta climática global será vencida ou perdida nesta década crucial”, disse ele. Guterres também disse que o financiamento é “uma questão fundamental de justiça climática, solidariedade internacional e confiança”, e sugeriu que, se os países ricos não pagarem, as empresas de petróleo e gás devem ser cobradas através de um imposto. Ele enfatizou, finalmente, que nos últimos anos “houve uma tendência de colocar as mudanças climáticas em segundo plano. Se não formos capazes de reverter a tendência atual, estaremos condenados”.

S&P Global

Link de acesso:

https://www.spglobal.com/commodityinsights/plattscontent/_assets/_files/en/specialreports/energy-transition/221122-cop27-advancing-climate-objectives-amidst-conflict.pdf

 

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