No artigo The Entrepreneurial State Must Lead on Climate Change, Mariana Mazzucato defende que a transição global para uma economia de emissões líquidas zero só acontecerá no ritmo necessário se os estados abandonarem a abordagem que ainda prevalece e que se baseia na crença de que as instituições financeiras privadas sempre alocam capital de forma mais eficaz e que os estados devem limitar-se a “reduzir o risco” dos investimentos verdes. Segundo Mazzucato, a demissão de vários membros da Glasgow Financial Alliance on Net Zero (GFANZ) – um grupo de 450 instituições financeiras – devido a preocupações com o custo de cumprir compromissos climáticos foi apenas a evidência mais recente a desmentir a noção de que instituições financeiras privadas podem liderar a transição para uma economia neutra em carbono. O que a transição realmente precisa, segundo Mazzucato, é de estados mais ambiciosos, que não se restrinjam a aperfeiçoar o funcionamento do mercado e reduzir riscos, passando a atuar como formadores de mercados e investidores em bens públicos.

Ao longo do artigo, a autora também descreve como deveria ser a abordagem de liderança do estado quanto ao financiamento climático. Primeiro, os estados devem adotar o papel de “investidores de primeira instância” em vez de esperar para intervir apenas como “credores de última instância”. Isto porque, em todo o mundo, as instituições financeiras públicas já apresentam experiência e estruturas de governança que lhes permite fornecer o tipo de financiamento de longo prazo, paciente e orientado para a missão (no caso, a missão pública da descarbonização) que o setor privado geralmente não fornece. Segundo, é necessário garantir que, quando entidades públicas assumem riscos para atingir objetivos sociais, o setor privado não deve se apropriar totalmente das recompensas financeiras. Ou seja, os retornos também podem ser socializados pela atribuição de uma proporção dos direitos de propriedade intelectual ao estado, permitindo que os lucros sejam reinvestidos em novos projetos verdes. Terceiro, para direcionar o investimento privado para atividades verdes e para reduzir o investimento em atividades prejudiciais, os estados devem fortalecer e atualizar as regras que regem os mercados financeiros, o que pode incluir bancos centrais introduzindo políticas de alocação de crédito verde e reguladores fortalecendo regras e padrões para prevenir greenwashing. Quarto, os formuladores de políticas devem reconhecer que o financiamento da dívida – seja fornecido pelo setor público ou privado − não é necessariamente um substituto para os gastos fiscais diretos. Finalmente, mais deve ser feito para fornecer espaço fiscal suficiente para que os países do Sul Global busquem suas próprias agendas de descarbonização e adaptação, garantindo financiamento de qualidade e em grandes volumes.  

Project Syndicate – Mariana Mazzucato (professora de economia University College London)

Link de acesso:

https://www.project-syndicate.org/commentary/entrepreneurial-state-only-solution-to-climate-change-by-mariana-mazzucato-2022-11?barrier=accesspaylog

 

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