Neste artigo, Jéssica Guimarães discute os impactos da contratação de 8 GW de novas usinas termelétricas como determinado pela Lei n° 14.182/2022, que tratou da desestatização da Eletrobras. Para além do evidente aumento tarifário de 25 R$/MWh que a contratação impõe aos consumidores cativos – aumento associado a um custo adicional de construção dessas usinas que não foram planejadas segundo os critérios técnicos do setor –, a autora analisa outros efeitos mais sutis, como a influência dessa geração adicional no preço de curto prazo praticado no mercado livre e seus impactos no Mecanismo de Realocação de Energia (MRE). Quanto ao preço de curto prazo (PLD), a autora enfatiza que, seguindo a lógica de operação dos modelos computacionais do setor, a inflexibilidade de 70% estipulada para a geração dessas novas térmicas necessariamente implicará em uma carga menor a ser suprida por outras usinas, e que isso resultará em um preço de curto prazo artificialmente mais baixo. Outro problema seria o impacto que essa contratação compulsória teria sobre as demais usinas que compõem o MRE. Como se sabe, no sistema hidrotérmico brasileiro, o MRE visa o uso ótimo da água no Sistema Interligado Nacional (SIN) e, para tanto, distribui contabilmente a energia total gerada entre todas as usinas participantes, tendo elas gerado ou não. Dado esse fato, um novo problema surge na medida em que a contratação dos 8 GW pela modalidade de energia de reserva desloca a energia do MRE, aumentando a probabilidade dessas usinas verem acirrado o problema do GSF que tanto abalou o mercado nos últimos anos. De fato, se o lastro do MRE for deslocado por elevado montante de energia de reserva, aumentam as chances das geradoras produzirem menos energia e depois terem que comprá-la a um preço mais alto no mercado de curto prazo a fim de liquidar seus contratos. Nesse cenário, os consumidores serão duplamente penalizados: além de arcar com os custos da contratação compulsória das térmicas por meio de pesado encargo, também serão chamados a bancar o ônus do risco hidrológico/GSF das geradoras

MegaWhat – Jéssica Guimarães (Analista de energia da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia de Consumidores Livres – Abrace)

Link de acesso:

https://megawhat.energy/noticias/opiniao-da-comunidade-2/147586/abrace

 

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