Neste crucial e alarmante artigo, o professor da Unicamp, Luiz Marques, autor do livro clássico “Capitalismo e colapso ambiental”, discute os caminhos já trilhados e o que precisa ser feito para que a sociedade possa empreender uma verdadeira luta contra as mudanças climáticas.

O texto parte de constatações científicas estabelecidas em 2017 − quando limitar o aquecimento da temperatura média global a 1,5 °C acima do período pré-industrial ainda era possível em termos geofísicos − e faz uma análise das mudanças ocorridas desde então. A principal conclusão é que, dadas as novas evidências científicas, conter o aquecimento em 1,5 °C (tal como estabelecido no Acordo de Paris), já se tornou impossível e que esse limite deve ser rompido muito antes do previsto. Segundo Marques, na origem da piora do cenário estaria o fracasso em se conter as emissões na magnitude necessária e a consequente aceleração do aquecimento global verificada desde 2016.

O autor comenta a seguir os eventos observados a partir de 2020, ano que foi considerado decisivo no combate às mudanças climáticas dado que a comunidade científica identificou essa data como a data limite para se atingir o pico de emissões e para se iniciar ações mais efetivas de mitigação. A esse respeito, Marques ressalta que, apesar da esperança suscitada pela redução das emissões durante a pandemia, em 2021 as emissões de GEE deram o maior salto desde o ano de 2010, chegando quase aos níveis de 2019. Outra constatação preocupante é a de que as emissões em 2022 poderão até mesmo ultrapassar o elevado patamar estabelecido em 2019.

Na sua análise sobre as razões mais fundamentais de toda essa frustração, Marques enfatiza que “o aumento das emissões é inevitável em um sistema econômico cuja razão de ser é a acumulação do capital, de modo que qualquer desestímulo externo, seja ele uma crise econômica, uma guerra ou uma pandemia, age de modo apenas efêmero sobre esse sistema”. Nesse ponto, o pesquisador chama atenção, portanto, para a necessidade de se entender as interações entre a física, a economia e a ordem jurídica que garante a permanência desse sistema. O que ele define como a questão central no atual momento é, então, uma questão que vai além da possibilidade ou impossibilidade biofísica de se conter o aquecimento global. Para ele, é preciso que se tenha uma verdadeira mudança de paradigma, onde os programas políticos passem a ser programas sociofísicos, ou seja, que considerem a necessária aceleração das mudanças sociais indispensáveis à desaceleração drástica das mudanças do clima, da perda de biodiversidade e da poluição. Para o autor, enfim, devemos passar a admitir que a economia é apenas mais um subsistema da biosfera; devemos lutar para que as ciências da Terra não sejam ignoradas por sociólogos e politólogos, e que nenhum programa político desconsidere mais essas interações e essas ciências.

Marques ainda debate o fracasso do acordo de Paris, afirmando que ele já nasceu morto porque sempre careceu das condições sociais e políticas para ser exitoso. E, por fim, conclui apontando três pontos essenciais para que possamos direcionar o desafio de combater verdadeiramente as mudanças climáticas.

Jornal da Unicamp – Luiz Marques (professor do Departamento de História do IFCH / Unicamp).

Link de acesso:

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/luiz-marques/da-geofisica-sociofisica